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flashes

Eu já morri tantas vezes durante as minhas noites solitárias e cada morte paralecia que seria a derradeira, a fatal. Cada morte foi lenta, corrosiva, como se a própria alma saísse pela boca,deixando o vazio. E em cada uma delas a certeza de que seria a última, a definitiva. Mas eu permaneço.

O que me mantém viva? A lembrança de momentos felizes, fragmentos de luz que atravessam-me como flash.

Se eu tivesse morrido ano passado, não teria provado aqueles momentos breves que, por segundos, minutos ou horas, enganaram a minha dor, mesmo que em alguns casos, a seguir tivesse sido devastador.

Uma noite a dançar ritmos nunca experimentados por mim;mãos dadas pelas ruas de Lisboa a andar nas nuvens; o luar numa praia; conversas profundas que abriram feridas mais profundas ainda para as curar; risos; abraços tímidos, outros nem tanto, alguns roubados; beijos ardentes, amigáveis; um almoço especial; uma tarde num museu; folhear um livro novo; ouvir num elogio; até mesmo o devaneio de um sonho acordada... São flashes que foram protagonizados por pessoas importantes, amigos, parentes, família e pessoas passageiras...

Se eu tivesse morrido eu não teria percebido que o motivo de puxar o gatilho era tão tolo e tão superável, como este será e os próximos que virão.

O que me mantém viva é saber que aqueles flashes se repetem, muitas vezes de forma diferente e todas essas vezes de forma única.

O que me mantém viva é imaginar a dor e a confusão que eu causaria no coração de todos que me amam e me admiram de verdade. Eu não suportaria vê-los sentirem-se traídos e impotentes.

Constantemente me convenço que a vida é uma aventura e quando chegar a nossa hora de ir embora, estaremos mais tarde rindo da nossa ingenuidade, porque o que está para além disso é muito maior.


 

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