A minha criança interior
- Lady Bird

- 22 de ago. de 2021
- 4 min de leitura
Eu penso que a minha criança interior está magoada ainda, visto que, em algumas situações da minha vida actual eu me comporto como uma criança, exigindo atenção, exigindo amor, etc.
Hoje eu tive um ataque de necessidade de atenção e houve uma ruptura na minha relação com uma pessoa especial. Talvez tenha sido melhor assim, não é todo mundo que entende que os nossos comportamentos são influenciados por traumas vividos na infância. Ninguém nem tem a obrigação de entender isso.
Por isso cabe a mim olhar com mais atenção para essa menina pequena que ainda está magoada e clama por atenção. Só depois de eu a curar é que eu poderei estar pronta para me relacionar com uma pessoa madura e equilibrada, que é o que eu busco e o que não ofereço.
Esta criança interior que está ferida dentro de mim, causa-me: baixa auto estima; imagem corporal distorcida; resistências à mudanças; profundo medo de abandono nos relacionamentos; insegurança; etc.
Como vou acolher e lidar com a minha criança interior? Neste momento a Adriana pequena está sentindo medo, está se sentindo confusa. Estou cansada de carregar nas costas tantas dúvidas e tantos medos. Já são muitos anos assim.
É necessário eu me isolar em um local tranquilo, até mesmo fazer um passeio pelo campo, para poder estar a sos com ela. E hoje fiz isto. Fui à um parque aqui perto da minha casa, não é tão tranquilo quando eu necessitava que fosse, mas foi um bom começo. Escolhi um banco meio afastado da confusão, sentei, coloquei a mão no meu coração e me permiti lembrar das minhas memórias infantis.
A primeira que veio à minha mente, foi quando eu tinha 9 anos e o Brasil estava todo parado à frente da televisão, pois o regime militar tinha caído. Naquela altura eu não entendia nada sobre isso, mas lembro como se fosse hoje a minha mãe a saltar de alegria quando o congresso nomeou como Presidente da República o candidato que ela havia votado. Porque essa lembrança me veio à mente? Não tem a ver com política, tem a ver com a visão da minha mãe feliz, a cantar e a dançar na frente da televisão. E não é que ela não tivesse momentos de alegrias, mas esses momentos eram sublimes para mim, porque a minha mãe foi uma mulher muito sofrida.
Outra lembrança que apareceu, foi de uns beijos dela. Eu andava a brincar pela casa e quando eu passava pela cozinha, lugar onde ela SEMPRE estava, ela me parava e me dava um beijo em cada uma das minhas bochechas. Eu lembro que o beijo deixava a minha face húmida, porque ela tinha o buço suado, quase sempre. Essa lembrança me trouxe muita ternura.
Lembrei da minha má relação com o meu cabelo, que é crespo e volumoso. Por ser assim, a minha mãe optou por deixa-lo sempre curto, matando a minha feminilidade e ferido a minha auto estima. Mas hoje eu compreendo que ela fez o que sabia, o que podia e o que achava que era melhor para mim. Eu disse para a minha criança interior perdoar isso, pois hoje eu estou a tratar dele com muito carinho e cuidado.
E foi neste momento que eu lhe disse algumas coisas muito importantes:
Estás segura, ninguém vai te xingar de feia. És linda agora, tens saúde e todos os teus sentidos em perfeito funcionamento;
Podes sentir medo, não faz mal, eu te protejo e te acolho;
Nós duas não precisamos ser quem não somos só para agradar aos outros;
Os nossos pais são humanos como nós e cometem erros, porque podem ter projectado os seus traumas em nós de maneira inconsciente. Hoje temos o conhecimento sobre isso, eles não tinham, então temos que perdoá-los, eles fizeram o que sabiam e o que podiam fazer naquelas circunstâncias;
Eu te amo, eu me amo, estamos seguras.
E eu celebrei o meu nascimento, porque na altura que ocorreu, eu não estava sendo esperada, eu não fui planejada, eu não fui desejada. Eu nem tinha roupa para vestir. Mas hoje eu visualizei aquela bebé indefesa e tão pequena, falei para ela o quanto eu estava feliz com o seu nascimento, o quanto estava feliz porque que era uma criança perfeita e cheia de vida, cheia de sonhos para realizar, falei para ela que era muito corajosa, porque tinha conseguido nascer. Disse-lhe que não tivesse medo, pois ia ficar em uma boa família. Eu me imaginei a ninar nos meus braços até que ela parasse de chorar, como fazem os bebés recém nascidos. Ela sentiu o calor do meu corpo e o amor que esse calor emanava e se acalmou e me olhou com curiosidade e eu lhe disse: olá meu amor, és tão linda, vais ter tanta gente que vai te amar de verdade ao longo da tua vida, mas o principal amor que vais receber a partir de agora vai ser o meu. Não tenhas medo, vais ficar bem entregue.
Por último eu voltei para casa, banhada em lágrimas, que a máscara cobria felizmente. Ainda havia mais uma etapa para ser cumprida: brincar com a minha criança. Sentei no sofá e espalhei ao meu redor uns livros infantis que ganhei de uma pessoa especial. Felizmente os ganhei, porque hoje fizeram a minha criança muito feliz. Ler era uma das atividades de que mais gostava. E passei ali uns bons minutos a folhear os livros e a ler.
No final de tudo me senti mais fortalecida e confiante. Eu sei que ainda há muito trabalho por fazer. E hoje nas minhas orações vai estar presente a minha gratidão pelos meus pais adotivos, que fizeram o seu melhor para me criar e aos meus pais biológicos que me permitiram está cá hoje, e que tomaram as melhores decisões que aquele momento permitia.




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